terça-feira, novembro 08, 2005

Desemprego e racismo alimentam revolta em Paris

DANIELA FERNANDES
da BBC Brasil, em Paris

A morte acidental de dois garotos que estariam sendo perseguidos pela polícia em Clichy-sous-Bois, periferia de Paris --estopim de uma onda de violência que já dura uma semana e se alastrou para outros subúrbios da região --relançou o debate sobre a política de integração social na França.

O distrito da Seine-Saint-Denis, que reúne os vários municípios onde ocorrem os confrontos entre gangues de jovens e policiais – e onde a maioria da população é imigrante –, é um mundo à parte para a maioria dos parisienses, que, em muitos, casos nunca visitaram essas áreas.

O charme da capital francesa não faz parte da paisagem da Seine-Saint-Denis, onde predominam as moradias sociais e suas enormes torres enfileiradas. A diversidade cultural de Paris também não está presente nesses locais, onde as opções de lazer são bastante reduzidas.

Os habitantes dessas periferias, onde vivem populações originárias do Magreb (Marrocos, Argélia, Tunísia) e de outras partes da África, afirmam ser vítimas de discriminação no mercado de trabalho. E se dizem frustrados, sobretudo os jovens, diante da falta de perspectiva para o futuro.

Desemprego

O índice de desemprego é elevadíssimo nessas periferias, de acordo com dados do próprio governo-- 21%, o dobro da média nacional.

Entre os jovens, o índice chega a atingir cerca de 40%, de acordo com o recente relatório do Observatório Nacional de Zonas Urbanas Sensíveis, divulgado em outubro pelo Ministério do Trabalho e da Coesão Social.

"A violência que ocorre atualmente na periferia de Paris é a expressão de um certo desespero, de cólera, de raiva e de um sentimento de injustiça", diz o sociólogo Michel Wieviorka, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris e um dos maiores especialistas franceses em violência urbana. Ele acaba de publicar o livro "Violência", sobre o problema.

Para o sociólogo, os jovens de bairros populares estimam viver em um "estado de guerra, que os opõem a um sistema que eles julgam como repressivo".

O próprio governo reconhece a diferença de oportunidades nessas áreas populares e de maioria imigrante: "Bairros sensíveis: as desigualdades persitem", é o título da publicação que resume o relatório publicado pelo Observatório Nacional de Zonas Urbanas Sensíveis.

"Nestes bairros, o fato de ser jovem, mulher ou imigrante aumenta o risco de ficar desempregado", diz o jornal da delegação interministerial para as cidades que comenta o relatório.

No caso das mulheres imigrantes, originárias de países que não fazem parte da União Européia, a taxa de desemprego é de 38%, segundo o documento.

De acordo com outra fonte oficial, o Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Econômicos, a taxa de desemprego de pessoas que cursaram a universidade é de apenas 5%. Mas no caso de diplomados de origem do norte da África (os países do Magreb, ex-colônias francesas), o índice atinge 26,5%.

"A França não consegue enfrentar a deriva do seu modelo republicano de integração", afirma o sociólogo Michel Wieviorka. "A violência nessas periferias é um problema que nem a esquerda nem os partidos de centro-direita da França conseguiram tratar nos últimos 25 anos", diz ele.

"Ralé"

O ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, acusado de ter piorado a situação ao utilizar termos como "ralé" para designar jovens dessas periferias, diz que a França enfrenta há três décadas problemas nas periferias consideradas "sensíveis".

"A primeira geração de imigrantes se integrou melhor do que a terceira geração", disse o ministro em uma entrevista ao jornal francês "Le Parisien". "Os avós estrangeiros se sentem mais aceitos do que seus netos que nasceram na França e são, portanto, franceses", afirmou o ministro.

Segundo ele, o problema é resultado da instalação na periferia de trabalhadores imigrantes que a França solicitou após o fim da Segunda Guerra e cujos descendentes não tiveram as mesmas oportunidades de trabalho.

O governo francês afirma destinar anualmente 2 bilhões de euros (cerca de R$ 5,3 bilhões) para as "zonas urbanas sensíveis". O ministro do Trabalho e da Coesão Social reconheceu nesta quinta-feira que, apesar dos recursos, a ação do governo não é suficiente.

O primeiro-ministro francês, Dominique de Villepin, prometeu elaborar até o fim de novembro um plano de ação para os subúrbios considerados difíceis. Para Wieviorka, o sistema francês deve ser "repensado para tentar conciliar justiça social e eficácia na área econômica".

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